Museu de Artes e Ofícios (MAO)

   Não há quem não perceba o imponente prédio amarelo no centro da ampla praça de concreto cinza. Pela janela do ônibus que segue seu itine...

   Não há quem não perceba o imponente prédio amarelo no centro da ampla praça de concreto cinza. Pela janela do ônibus que segue seu itinerário pela Avenida dos Andradas, a imensa fachada parece móvel. Gigantesca e espaçosa, se deixa ser interrompida apenas por uma estátua. E ao final, encontra-se com o acesso à Estação Central de Metrô, por onde passam incontáveis pessoas diariamente. É certo que apesar da pressa, do vai e vem, e da multidão, todos vêm o prédio. Mas quem vê o Museu?


   O Museu de Artes e Ofícios (MAO) está dentro do prédio principal do Conjunto Arquitetônico e Paisagístico da Praça da Estação. As primeiras peças de seu acervo chegaram em 2005, pelas mãos de Ângela Gutierrez, que deu início a tudo através da coleção pessoal de seu pai, o engenheiro Flávio Gutierrez. Os itens são originais do período compreendido entre os séculos XVIII e XX. Com o tempo, outras pessoas também doaram objetos, contribuindo para que o MAO chegasse a mais de 2.000 peças. O Museu é o único do país com temática exclusiva sobre o trabalho, e remonta cenários do período pré-industrial no Brasil.

O Praça e o Prédio

   A construção da Praça Rui Barbosa (mais conhecida como Praça da Estação) e de seu prédio principal são da época do surgimento de Belo Horizonte. Foram feitos para abrigar a estação ferroviária que seria a principal via de chegada à nova capital mineira.
   Mas este não é o edifício original da época! O primeiro foi demolido em 1920, e aquele que conhecemos hoje, foi inaugurado em 1922.
   O Prédio da Estação ficou abandonado por muitos anos, e só em 2002, após ter passado por restauração, foi ressignificado, para abrigar o Museu.

Prédio da Praça da Estação, que abriga o Museu de Artes e Ofícios | Foto: Mallê.

Nossa Visita ao Museu

   Durante o feriado do dia 12 de Outubro, quando fazia um calor daqueles, sob o sol escaldante de Belo Horizonte, fomos conhecer o Museu de Artes e Ofícios. Fomos muito bem recebidos por seus funcionários, que nos deram algumas orientações antes da visita, um mapa do local, e uma chave para guardar nossas bolsas nos escaninhos disponibilizados para visitantes.

Exposição Temporária

   Nossa primeira parada foi na sala em frente a esta dos escaninhos, onde havia uma mostra temporária sobre Animação. Ficamos encantados! Somos grandes fãs desse tipo de cinema! Aprendemos como são feitos os desenhos animados, as técnicas utilizadas em outros lugares do mundo, mesas e máquinas (das mais antigas às mais modernas) para desenhar quadro a quadro de modo que a sobreposição de imagens se transforme em movimento. Além disso, haviam materiais para fazer os desenhos, e outros para modelar e esculpir bonecos utilizados em stop motion.

Personagem de filme stop motion: várias expressões faciais podem ser encaixadas no rosto do boneco | Foto: Thiago Kling
   Na saída desta sala, ganhamos um pequeno livreto que, ao ser folheado, se move, reproduzindo um trechinho do curta "Égun - Mistérios do Mar". O trabalho dirigido pelo mineiro Helder Quiroga nos fez chegar em casa e buscar mais a respeito, e assim, nos deparamos com a animação completa (e maravilhosa), que traz referências às religiões de matriz africana, tão evidentes nas tradições mineiras, e em foco nas discussões mais atuais.



Exposição Permanente

   Passamos pela catraca, e mais nos pareceu que tínhamos atravessado um portal no tempo. Fomos transportados aos tempos sem máquinas com motores, onde a força humana era o combustível, a motriz das engrenagens. Imediatamente, começamos a imaginar como tudo acontecia, as condições às quais os trabalhadores eram submetidos.
   As ocupações retratadas no Museu são as mais variadas: ambulantes com suas grandes caixas de muambas; costureiras e alfaiates que trabalhavam dia e noite já que não havia produção em larga escala para alimentar estoques de lojas de roupa; tropeiros que transitavam com mercadorias de uma cidade até outra a cavalo; o famoso lambe-lambe (fotógrafo de rua); barbeiros que, em suas cadeiras, faziam barba, bigode, cabelo e extrações de dente (pois é, eram eles os "dentistas" da época!); seguranças (capangas), dentre tantas outras!

Tropeiros: transportavam mercadorias de uma cidade até outra, a cavalo, levando dias e até semanas | Foto: Mallê
   Aqui também são retratadas as partes da história que não devemos esquecer, mas que adoraríamos que se quer tivessem acontecido. São ferramentas e trajes utilizados pelo povo negro escravizado.
   O acervo é dividido por setores: ofícios da mineração, transporte, comércio, madeira, fogo, couro, madeira, lapidação e ourivesaria, cerâmica, terra, conservação e transformação dos alimentos, etc.

Ofícios relacionados à culinária: esta gigante engenhoca corresponde à batedeira de hoje | Foto: Thiago Kling.
Ofícios do Fio e Tecido | Foto: Thiago Kling.
   Os setores por sua vez, são distribuídos em dois blocos, ligados um ao outro por um túnel. Ele passa por baixo dos trilhos da linha férrea. Em suas paredes, estão escritos os nomes de todas as pessoas que trabalharam na reforma do prédio, na organização do museu, em sua gestão, etc. Absolutamente TODOS os nomes! Administradores, raspadores de taco, eletricistas, ajudantes de pedreiro, recepcionistas, diretores... Não bastasse o mimo de lembrar de cada um, ainda tiveram a gentil atitude de colocar os nomes em ordem alfabética, evitando hierarquia de cargo!

"Veja Com Quantos Ofícios se Faz um Museu" | Foto: Thiago Kling.
   O MAO propõe um constante diálogo: sua arquitetura, com dois blocos, parece abraçar as plataformas de metrô, por onde tantas pessoas passam para chegar ao emprego. As paredes voltadas para os trilhos são transparentes, assim, o trabalhador pode, de seu local de passagem, olhar para o Museu, enquanto o Museu faz do trabalhador uma eterna peça mutável, em exposição permanente. 

Paredes de vidro: proposta de interação com os trabalhadores enquanto em suas rotinas | Foto: Thiago Kling.
   Os funcionários do MAO nos disseram que muita gente passa pela porta, fotografa a fachada, mas pouquíssimos sabem que lá dentro funciona um museu! Enquanto caminhávamos pelas galerias, conhecemos Maria das Graças, uma belo-horizontina com seus 57 anos de idade, que viveu toda a vida aqui. "Eu tô encantada! Tudo muito lindo! Às vezes a gente viaja e vai ver coisa tão longe, e não conhece o que tem na cidade que mora, né? Eu nunca tinha entrado aqui. Tava passando na porta e resolvi entrar. Achei lindo demais!". É bem isso... Mal de todos nós. E contra o qual temos lutado diariamente para mudar.
   Arriscamos dizer que este é um dos museus mais lindos que já tivemos a oportunidade de conhecer até o momento! Nos marcou pela maneira como nos convida a refletir. Até que ponto estamos, de fato, evoluindo? Temos aprendido a ser parte das máquinas, que muitas vezes tornam nossas habilidades obsoletas e nossa presença desnecessária. Ainda assim, é o trabalho quem nos enobrece.

Visite o MAO

- Endereço: Praça Rui Barbosa (Praça da Estação), nº 600, Centro
- Horário de Funcionamento: Terça-feira, de 9:00 às 21:00h | Quarta a Domingo, de 9:00 às 17:00h | Feriados: 9:00 às 17:00h 

- Entrada: Gratuita
- Site Oficial: http://www.mao.org.br

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