Festivale: Onde a cultura popular do Vale do Jequitinhonha se faz viva

   O Vale do Jequitinhonha é um dos berços da cultura e das tradições de Minas Gerais, e tudo isso se faz intensamente vivo durante os...

   O Vale do Jequitinhonha é um dos berços da cultura e das tradições de Minas Gerais, e tudo isso se faz intensamente vivo durante os dias do Festivale.

expediçao pão de queijo cultura popular
   Você, provavelmente, já ouviu falar do Vale do Jequitinhonha. Mas o que te disseram sobre ele? Vale da pobreza, da fome, da miséria... Essa é a imagem feita dele ao longo de décadas. Assim ele é conhecido no Brasil e no mundo. O Vale teve seus tempos de dor. Mas com o passar dos anos, muita coisa mudou...
   Apesar das dificuldades que ainda existem em algumas de suas regiões, principalmente devido à localização geográfica e às condições climáticas desses lugares, essas terras banhadas pelo Rio Jequitinhonha guardam as verdadeiras preciosidades de Minas Gerais.
   Segundo Deolinda Alice dos Santos em seu livro Festejos Tradicionais Mineiros: Registros da Fé e do Folclore, "vários projetos culturais tornam a população mais corajosa e ousada em buscar a melhoria da qualidade de vida a partir de seus valores regionais". E foi exatamente em busca de dar voz à cultura, arte e artistas, e mostrar um outro lado do Vale (que nunca tem vez na mídia) que surgiu, há 36 anos, o Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha (Festivale).
   Ano após ano, o festival vem acontecendo em diferentes municípios dos 51 que compõem o Vale do Jequi. Uma semana inteira dedicada às suas mais diversas manifestações: poesia, artesanato local, música, rodas de ciranda, marujada, teatro, danças... Tudo acontece entre os últimos dias de julho, e o início de agosto.
   Saímos da cidade de Capelinha e seguimos rumo a Felício dos Santos/MG, que foi nossa casa por uma semana. O objetivo: participar deste que é o maior encontro de sabedoria popular, celebrando o sorriso e a fé de sua gente, e sua riqueza desconhecida.

Grupos Populares e Folclóricos do Vale do Jequitinhonha

   Pode-se dizer que os grupos populares são o alicerce do Festivale. Pilares da cultura do Vale do Jequitinhonha, nasceram, em sua grande parte, das tradições quilombolas e manifestações religiosas, elementos inerentes à cultura mineira, e sobreviveram graças à oralidade.
expediçao pão de queijo cultura popular
Grupo de Violeiros | Foto: Thiago Kling
   Todas essas heranças culturais se aliaram às histórias cotidianas de seu povo. Dessa forma, nasceram grupos hoje muito conhecidos, como o Coral das Lavadeiras. Além daqueles já existentes há séculos, como é o caso das tradicionais cirandas.

Ciranda

   As rodas de ciranda talvez estejam entre os costumes mais difundidos. Quem nunca brincou de roda cantando "Atirei o Pau no Gato" ou "Ciranda Cirandinha"?
   As cantigas fazem parte do inventário infantil, e suas canções são passadas de geração em geração, ganhando adaptações e variações de acordo com o local.
   Mas engana-se quem associa as cantigas de roda somente às crianças! Durante o Festivale, vimos grupos formados por gente de toda idade, mas sempre com a magia da infância nos olhos!
expediçao pão de queijo cultura popular
Roda de Ciranda | Foto: Thiago Kling.
expedição pão de queijo cultura popular
Grupo de Ciranda da cidade de Felício dos Santos | Foto: Mallê.
   Não se sabe ao certo o surgimento da Ciranda. Acredita-se que tenha vindo de Portugal. Mas há quem atribua seu surgimento às comunidades pescadoras de Pernambuco, onde, segundo contam, tentavam reproduzir os movimentos das ondas do mar através da dança.

Marujada

   A marujada é uma manifestação da cultura popular que vem se mantendo há séculos. Está presente em diversas regiões, principalmente Norte e Nordeste do país. Graças à imensidão territorial do Brasil e de sua diversidade, a Marujada recebeu muitos outros nomes: Nau Clarineta (Paraíba), Barca (Minas Gerais), Barquinho ou Fragata (interior da Bahia), Marujos (Piauí), e Fandango (Ceará).
expediçao pão de queijo cultura popular
Marujada | Foto: Thiago Kling.
   Esse ícone do nosso folclore chegou até aqui vindo de Portugal. Na terra de nossos colonizadores, era uma comemoração às conquistas marítimas e aos descobrimentos.
   Conta a história que teria chegado em terras brasileiras na época das formações religiosas dos negros, que tinham como padroeira Nossa Senhora do Rosário. A marujada passou, então, a ser encenada em festejos religiosos, principalmente em homenagem à Santa. Dessa forma, sofreu mudanças que hoje a diferem do típico fandango português.
   Os participantes são, em sua maioria, homens e crianças. As roupas têm cores e detalhes que lembram o uniforme dos marinheiros. Os movimentos da dança lembram o balanço do mar. As batidas dos instrumentos, o quebrar das ondas. Entre as canções, versos que falam da luta dos marujos e da devoção a Nossa Senhora.
expediçao pão de queijo cultura popular
Marujada: as cores | Foto: Thiago Kling.
   Um fato que nos chamou a atenção durante a apresentação da Marujada de Felício dos Santos, foi que ao passar por uma ponte sobre um rio, todo o cortejo silenciou até que a ponte fosse atravessada. Quando perguntamos sobre aquilo, nos foi dito ser um ato de respeito em reverência às águas.
   A Marujada Nossa Senhora do Rosário, de Felício dos Santos, teve início por volta de 1940, quando seus fundadores chegaram aqui. No entanto, a primeira apresentação pública só aconteceu em 1943.
   O senhor José João da Silva é o Patrão do grupo. Hoje com quase 90 anos, soma mais de 70 de Marujada. Foi homenageado durante o Festivale, dada sua importância para a tradição.
expediçao pão de queijo cultura popular
Sr. José João da Silva, patrão da Marujada de Felício dos Santos | Foto: Thiago Kling.
   Durante as apresentações, o contraste entre as várias faixas etárias demonstraram que a tradição vem se mantendo, mesmo com o passar do tempo.
Pessoas de todas as idades compões o Grupo de Marujada de Felício dos Santos | Foto: Thiago Kling.

Folia de Reis

   Os grupos de Folia de Reis também marcaram presença. A manifestação religiosa tem representantes na maioria das cidades do estado. De origem católica, celebra-se a longa caminhada dos três Reis Magos, seguindo a estrela guia, até encontrar o Menino Jesus, o messias que havia nascido, para presenteá-lo.
expediçao pão de queijo cultura popular
Membro do grupo de Folia de Reis da cidade de Araçuaí - MG | Foto: Thiago Kling.

Artesanatos e Artesãos

   É certo que o artesanato mereceria um post somente para ele, afinal, muito do "artesanato mineiro" encontrado Brasil e mundo afora, são vindos do Vale do Jequitinhonha.
   Desde muito tempo, o barro vem sendo usado em várias comunidades para a fabricação de panelas e utensílios para cozinha. Mas logo se tornou obra de arte, e as peças funcionais deram espaço às decorativas.
   Artistas como Dona Isabel (in memorian), deram um novo significado às peças como as moringas, que antes eram unicamente funcionais, mas que nas mãos dela, passaram a ter também um apelo decorativo. Ou como é o caso da ceramista Noemisa, que ao invés de luz pra criar suas fotografias, usa o barro, onde ela retrata cenas do seu cotidiano. Outros, como muitos artesão da cidade de Minas Novas, por exemplo, retratam os casarões do período colonial de forma incrível em pequenas miniaturas.
   Mas não só de barro vive a arte do Jequitinhonha. No Festivale há uma tenda onde é exposta toda diversidade de artesanato: sementes dão vida a brincos, colares, quadros; fibras de bananeira viram potes e cestas; cabaças viram maravilhosas bonecas ou potes - e por que não os dois num só?!
expediçao pão de queijo cultura popular
Artesanato da cidade de Gouveia, feito de cabaça, em exposição no 34º Festivale | Foto: Thiago Kling.
   No Vale do Jequitinhonha, vimos as novas gerações em reverência aos mais antigos como nunca havíamos visto antes! Um grande exemplo, é o amor e respeito de todos por Mestre Antônio Tambozeiro, de Minas Novas.
   Mestre Antônio vem de uma família de fazedores de tambor, que segundo ele ouviu dizer, o tataravô já fazia, e ele continuou o trabalho.
   O Mestre, como é carinhosamente chamado por todos, tem uma fala simples - daquelas típicas do interior -, e muita clareza ao dissertar sobre seu ofício e o amor que sente por fazer o que faz. 
   Ele costuma dizer que os tambores são o som de Deus, e que onde o som do tambor entra, todo o mau vai embora. Em entrevistas, Mestre Antônio fala sobre  como o tambor muda uma sociedade, pois "se o homem sai pra fazer bobagem; de assaltar, ou bater na mulher, e de repente ele ouve o tambor, ele muda, ele perde a vontade de fazer aquilo, porque o som do tambor, é o som de Deus, é o som dos anjos".
expediçao pão de queijo cultura popular
Mestre Antônio em seu ofício de fazer tambor | Foto: Mallê

Música, Poesia e Teatro

   O Festivale tem um apelo muito grande em mostrar a arte às comunidades por onde passa. Algo que nos encantou foi o fato de grande parte da programação acontece no espaço público, como ruas e praças, o que é por si só é maravilhoso, por tornar acessível a todos, mesmo àqueles que nunca tiveram contato com peças teatrais ou shows de grande porte.
   O sorriso das crianças, em especial, ficou gravado na memória. Elas, diante dos palhaços, do marionetista ou dos contadores de histórias, pareciam hipnotizadas, demonstrando claramente a dimensão daquele acontecimento na vida delas.
expediçao pão de queijo cultura popular
Crianças assistindo às apresentações dos palhaços em praça pública | Foto: Thiago Kling.
   As companhias de teatro e corais, formados nas próprias comunidades do Vale, abordaram temáticas atuais da região.
Peça teatral durante o 34º Festivale | Foto: Thiago Kling
Apresentação de Teatro durante o 34º Festivale | Foto: Thiago Kling
   O Grupo Ícaros do Vale, trouxe um verdadeiro espetáculo. Interpretação e figurinos de encher os olhos!
expediçao pão de queijo cultura popular
Companhia Teatral Ícaros do Vale, durante o 34º Festivale, em Felício dos Santos | Foto: Mallê.
expediçao pão de queijo cultura popular
Companhia Teatral Ícaros do Vale, durante o 34º Festivale, em Felício dos Santos | Foto: Mallê.
expediçao pão de queijo cultura popular
Companhia Teatral Ícaros do Vale, durante o 34º Festivale, em Felício dos Santos | Foto: Mallê.
   Além dos artistas consagrados como Rubinho do Vale, Pereira da Viola (foto) e Paulinho Pedra Azul, presenças confirmadas durante o evento, o palco do Festivale dá espaço aos novos talentos.
expediçao pão de queijo cultura popular
Show com Pereira da Viola, no encerramento do 34º Festivale | Foto: Thiago Kling.
   A Noite Literária, um concurso de poesias, se dá em forma de sarau, bastante intimista. Os participantes se apresentam interpretando uma poesia (autoral ou não), em uma performance de palco.
expediçao pão de queijo cultura popular
Edelvan Alves, de Capelinha, ficou em primeiro lugar na Noite Literária, com seu poema "Pão e Reza" | Foto: Mallê.
expediçao pão de queijo cultura popular
Regiane Duvale, premiada com o segundo lugar na Noite Literária, com seu poema "Olhos do Jequi" | Foto: Mallê.
expediçao pão de queijo cultura popular
Djalma Ramalho, premiado com o terceiro lugar na Noite Literária | Foto: Mallê
   Além disso, há também o concurso de música, que acontece por três noites consecutivas: duas eliminatórias e, no sábado, com o encerramento do evento, a grande final. O nível dos competidores, em ambas as atrações, altíssimo! Neste ano, em especial, o festival abriu as portas para que se inscrevessem pessoas de todo o país.
expediçao pão de queijo cultura popular
Nino Aras, da cidade de Diamantina, premiado no Festival da Canção do 34º Festivale | Foto: Mallê
   As terras encantadas do Vale banhado pelo Rio Jequitinhonha estão repletas de histórias e tradições. Todo aquele nascido aqui se faz herói desde cedo.
   Ficamos totalmente imersos numa das experiências mais intensas que já experimentamos em nossas vidas! Durante 8 dias, sem telefone, internet, ou qualquer tipo de conexão virtual, nos conectamos com histórias, raízes, e com nossa essência.
   Sentimos cada átomo de nossos corpos vibrando. E o que pulsava no peito, já não era um coração. Apenas o bumbo dos tambores do congado. Nossas cores eram muitas, nos trajes da Marujada... Éramos todos os olhares, todos os povos. Éramos, tudo e todos, um só!
expediçao pão de queijo cultura popular
Grupo de Ciranda de Felício dos Santos | Foto: Mallê

Curiosidade:

   O nome Jequitinhonha, vem da junção de Jequi e Onha. Jequi, nome do rio, é também um artefato indígena usado pra pesca. Onha, um pequeno peixe típico da região. Então o nome se deu pela junção de: "No Jequi tem onha?" A frase foi eternizada numa cantiga popular que diz:

Conta, conta cantador
Conta a história que eu pedi 
Dizem que o jequi tem onha
Conta as onhas do jequi 

Acho que você vai gostar.

0 comentários

Nos acompanhe no Instagram